Prazeres de viajar. Uma crônica para relaxar

Por REDAÇÃO - PA4.COM.BR | 28 de Maio de 2020 às 23:57

Francisco Nery Júnior

Dividir os louros [da vitória] com o leitor. De Deus eles já são. Há prazeres na viagem. A maioria legítimos e uns poucos perfunctórios. Ficam ali na superfície a nos dar o prazer que procuramos. A vida sem prazeres, diriam alguns, não é vida. (Para que, então, a Natureza bela – e atraente?) Um deles, de passagem, de um cabra de cepa garantidor competente da boa saúde das nossas próstatas, é comprar camisas. De minha parte, um pouco desse prazer. As calças, basta uma – ou duas -para compor. Se não envelhecessem ou desbotassem, nenhuma necessidade de comprar mais uma.

 

O primeiro grande prazer de uma viagem é, pelo menos para mim, estar lá. O viajante sobe uma rua, para na esquina e pergunta, num francês ainda insipiente, onde está a Torre Eiffel. “Bem aí na esquina”, responde o garçom. Você se vira e … a grande torre a apontar para o céu! Prazer maior? Não. Não existe. Ali está a França. Ali Adolf Hitler se postou em vingança contra a França vencedora da Primeira Guerra Mundial. E ali está você, pequenino como sempre, ante o primeiro símbolo da França gloriosa.

 

Estar lá e vasculhar a memória. Segundo prazer. Lembrar-se dos anseios antes da viagem. Constatar o sonho realizado. Tirar prazer da quilometragem percorrida. Eu estava em Houston no Texas a estudar na Universidade St. Thomas por quarenta dias em regime intensivo. O meu roommate, Juan, da Costa Rica, não falava inglês. Voltou pior do que chegou, com exceção que voltou para casa mais aliviado pelas muchachas do Texas. Da minha cama para o lado, lancei para Juan o até amanhã que a minha irmã Niçu, mais velha, lançava para mim em espanhol quando na casa dos meus pais: “Hasta mañana, Juan”. E Juan me respondeu: “Hasta mañana, Francisco”. Ali estava paga toda minha despesa para estudar, pela primeira vez, nos Estados Unidos. (Nunca viajei financiado por político de qualquer natureza ou cor, e sempre sem apoio de nenhuma empresa nacional, embora tenha levado [bem] o nome de Paulo Afonso pelo mundo.)

 

A maior paga para mim em Houston não foi o meu primeiro lugar entre cerca de 120 estrangeiros, muitos dos quais há meses nos Estados Unidos. Não foi ter sido o primeiro dos quatro do primeiro grupo top de um japonês, uma suíça, um alemão e um nordestino do Brasil. Foi aquele hasta mañana. E, já em fim de vida, todos os louros ficam transferidos para os meus leitores de Paulo Afonso. Mesmo porque, não há como levá-los no caixão e comigo incinerados.

 

Desta vez foi em Madri, capital da Espanha, onde pude usar boa parte do espanhol treinado com o colega Juan, gente boa, nos Estados Unidos. Uma caravana de estudantes franceses acabara de almoçar e o líder contava, um a um: “un, deux, trois… dix-sept”. Olhei para Ângela e pronunciei: “vingt-deux” [ê]. Depois do vinte e um, pelo líder, a pronúncia do vingt-deux [ê]. Para mim fazia todo sentido o gozo. Uma das histórias do meu pai era ter aprendido, na escola, naquele tempo, o tempo dele, a pronúncia [dê] e, numa peça de teatro em francês, ter escutado deux pronunciado por um dos atores [di]. Meu pai conjecturou e exigia a pronúncia [ê] não levando em consideração as interferências no som durante a apresentação. Pena que ele já estivesse na eternidade quando ouvi, de um francês na Espanha, o deux pronunciado com o som fechado. Não importaria a minha colocação posterior no primeiro e maior estágio de quatro estágios do ICT em Toulouse, na França. Alguns colegas da turma de quinze, alguns há meses na França, não passaram do segundo estágio. Tudo é verdade e os louros, de novo, vão para os companheiros de Paulo Afonso onde vivo por 45 anos e de onde sou cidadão honorário.

 

E encerro a viagem na Itália declamando para o leitor católico o esplendor do Vaticano gozado após uma tournée pelos lugares históricos de Roma para onde o apóstolo Paulo foi levado prisioneiro e onde teve a cabeça decepada por amor a nós que, bem-aventurados, não vimos, mas cremos.

 

Francisco Nery Júnior

 

P.S. E as organizações católicas no Brasil e o grande trabalho de assistência e “relief” que levam a efeito, bem como outras organizações religiosas comprometidas, nestes tempos de pandemia. Carece imitá-las após os gritos altissonantes de aleluia dentro das quatro paredes.




 



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