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20 de novembro é dia da Consciência Negra no Brasil, por esse tema caro, separei um trecho do meu TCC que teve como objeto de estudo: ‘Uma reflexão discursiva e sociológica da marginalização do negro na sociedade brasileira’.

 

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Cenas de ‘Cidade de Deus’, representação do negro no cinema brasileiro.

Separei apenas um pequeno trecho que ilumina o discurso do sociólogo Gilberto Freyre, não a partir da Casa Grande, mas da senzala.

[…]

Não é possível precisar em que momento da história brasileira o passado escravista morreu, se é que o passado morre. Entretanto, os resíduos deixados por quase quatro séculos de escravidão produziram consequentemente, a pobreza e a marginalidade mediadas pelo preconceito racial contra o negro, sistematicamente barrado socialmente.

 

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Hoje é dia da Consciência Negra!

O Brasil foi o país que mais exportou escravos africanos e o último que aboliu a escravidão (apenas em 1988) em relação ao contingente negro mundial só ficamos atrás da Nigéria, aproximadamente oitenta milhões de brasileiros, o que corresponde a 46% população.

 

Segundo Paulo Vinícius Batista e Fúlvia Rosemberg: “Convivemos com intensa dominação branca sobre outros seguimentos étnicos raciais no acesso aos bens e materiais simbólicos”.

 

Podemos supor, por isto, a resistência que certos setores da sociedade, mais especificamente, àqueles que sempre enxergaram o Brasil, como modelo de relações amistosas e cordiais – sustentados pela intensa miscigenação-, à proporção que a luta dos afrodescendentes por reparações ganha terreno. Principalmente, no debate em relação às reservas de cotas para negros nas universidades públicas, e as polêmicas envolvendo as representações do negro na mídia.

 

É interessante ressaltar logo de saída, que qualquer pesquisa em torno dos problemas étnicos brasileiros, mesmo com tantas contradições dentro do próprio campo de estudo, esbarra sempre na escassez de pesquisas que deem ao racismo a conotação e o destaque devido, exceção feita A Sociologia do Negro Brasileiro-1988, de Clovis Moura.

 

O livro vem um século após abolição, examina a dinâmica social que, após a conquista dos negros, e não dos brancos, que se diga, condicionou o negro às franjas da sociedade brasileira.

 

Por óbvio que o leitor pode discordar, ruim mesmo é a indiferença. Mas aqui se diz que não houve triunfo na miscigenação, na prática, não para os negros. É uma opinião que eu respeito e exponho.

 

Moura fala a partir da senzala, da obra ‘Casa Grande & Senzala’ que contribuiu significativamente para criar, segundo afirma, a ‘falsa ilusão do junto e misturado’, observa:

 

Gilberto Freyre antecipava-se na elaboração de uma interpretação social do Brasil através das categorias Casa Grande e Senzala, colocando à nossa escravidão como composta de senhores bondosos e escravos submissos, empaticamente harmônicos, desfazendo, com isto, a possibilidade de se ver o período no qual perdurou o escravismo entre nós como cheio de contradições agudas, sendo que a primeira e mais importante e que determinava todas as outras era a que existia entre senhores e escravos. O mito do bom senhor de Freyre é uma tentativa sistemática e deliberadamente bem montada e inteligentemente arquitetada para interpretar as contradições estruturais do escravismo como simples episódio epidérmico, sem importância, e que não chegaram a desmentir a existência dessa harmonia entre exploradores e explorados durante aquele período. Finalmente, podemos compreender por que toda uma geração que sucede a de Freyre psicologiza o problema do negro, sendo que parte dela é composta de pesquisadores como Renê Ribeiro, Gonçalves Fernades, Ulisses pernambucano e Artur Ramos. (MOURA, 1988, p.18)

 

No que concerne à herança ideológica deixada por Freyre, que é exatamente a miscigenação como o aspecto positivo, e por que não dizer glorioso, já que surgia no Brasil uma nova raça, fruto do intercâmbio sexual entre as os povos matrizes: o branco, o negro e o índio, o mestiço viria para apagar, por assim dizer, os traumas da escravidão. Porque entre outras coisas, segundo essas ideias alienantes, não haveria uma separação no espaço social, podendo o afrodescendente se integrar e paulatinamente ocupar seu espaço.

 

20 de novembro de 2016, cinco anos depois desse estudo, porque me dá a estranha sensação que as coisas não avançaram. Explodem na internet quase que diariamente manifestações racistas contra celebridades negras, e fora o que não é noticiado:  o dia a dia do negro neste espaço conflitante, então o que isto significa na prática?, tendo, de novo, a concordar com Moura. ‘Somos misturados e desiguais’.

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