20 de setembro de 2021

Sobre o “novo” cativeiro feminino… (Por Evelyn Santana)

Por

Redação (pa4.com.br)

Evelyn Santana

Algumas palavras quando faladas ou escritas nos passam uma sensação diferente. ​Podem causar euforia, tristeza, esperança e muitas vezes questionamentos: cativeiro pode ser uma delas. Cativeiro nos remete automaticamente a inúmeras imagens mentais, sejam advindas de leituras, filmes, fotografias ou outros vetores que apresentaram a significação dessa palavra para nosso contexto pessoal ou geral. Em uma definição objetiva acerca da palavra em questão, nos deparamos com a representação de “ lugar em que alguém se encontra cativo, prisão ou clausura”. Então, qual a associação entre a palavra citada e a condição atual feminina?

Há quem acredite piamente na ideia de que alcançamos todos os lugares que nos cabem na sociedade depois de muitos anos de luta por direitos femininos. Isso, não somente no que se refere ao contexto do nosso país, mas também ao contexto global. Em virtude dessa linha de raciocínio que permeia o imaginário da população… é grande a probabilidade de que seja questionada a própria temática desse texto. Ora, será que é realmente salutar abordar questões de gênero com essa urgência? Anteciparei minha resposta à hipotética pergunta com um sonoro sim! Pois, a cada palavra, vírgula ou ponto que digito, me certifico de que somente através da conscientização e do acesso às informações conseguimos ou conseguiremos efetivamente modificar ou avançar nesse e em outros contextos.

Ao longo dos anos muitos autores/as escreveram em cárcere ou exílio. Essa condição de ausência de liberdade, de certa forma imprime a imagem de que tanto suas ações quanto causas estavam gerando incômodo. E, o incômodo é sinalização de que algo está sendo modificado, e, também sinaliza a insatisfação dos que defendem a continuidade do que está posto.

Voltarei novamente ao título, nosso norte nesse momento. Muito embora, ele pareça não refletir nossa realidade, pela inserção da palavra cativeiro… ele fala sobre o nosso passado e presente. Na história de nossos avanços enquanto mulheres inseridas na sociedade, é factual que após algumas conquistas, passemos por um momento em que somos silenciadas ou desviadas do foco de nossa liberdade. Não estou afirmando que estamos presas literalmente em nossas casas. Mas somos realmente livres mesmos nos dias de hoje? Sim, podemos votar, trabalhar, estudar, romper com relações que não nos fazem bem e até ocupar determinados espaços. Entretanto, saliento que todas as possibilidades citadas acima ainda estão atreladas aos arquétipos do que de fato uma mulher deveria ser ou representar. Votamos, mas ainda somos minoria no cenário político, trabalhamos, mas ainda ocupamos menos cargo de chefia ou cargos que são ocupados majoritariamente por homens. E sobre essa questão, devo acrescentar o fato de que inúmeras mulheres realizam a famigerada tripla jornada, em uma luta laboriosa entre cumprir com suas obrigações fora e dentro do espaço doméstico. Sobre as relações, apesar de estarmos em um momento de autoconhecimento e empoderamento, muitas e falo muitas mulheres ainda estão sob o jugo de relacionamentos tóxicos ou abusivos. Afora essas questões, nossa liberdade veio com uma questão que nos é cobrada cotidianamente: nossa aparência. Esse é mais cativeiro no qual estamos presas e que nos pressiona fisicamente e psicologicamente. Ao passo que ganhamos liberdade para certas coisas, somos imputadas ainda a cumprir determinados papéis. Desarte, as palavras que trago hoje, não foram utilizadas para narrar uma história de derrotas ou retrocessos. Mas de avanços que são constantemente contidos por situações corriqueiras, que por parecerem tão normais não se apresentam enquanto uma ameaça em comparativo aos diversos patamares alcançados. Estética na forma de pressão, domesticidade por obrigação, ausência de ocupação de cargos, impossibilidades de formação, relações tóxicas… São novos cativeiros? Ou reformulação dos antigos?

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