Um gato que nos fez ver a Deus. Por Francisco Nery Júnior

Por REDAÇÃO - PA4.COM.BR | 28 de junho de 2020 às 17:51

Foto: Ilustração/Google



 

 

Um gato que nos fez ver a Deus

 

Prestando bem atenção, não temos uma eufonia no título. Temos uma cacofonia. Os sons, leitor, como que se atropelam e os ouvidos reclamam. Até tentamos preposicionar o objeto [direto]. Fica assim, porém, porque só assim exprime o que nos vai na alma.

 

Um gato, um simples gato, velho e doente, cambaleante das pernas, nos apareceu. Há cerca de dois meses, na porta do quintal, nos apareceu. Nós o alimentamos. Por que não? Para isso ele nos caiu na nossa porta. E pela porta dos fundos, o velho e alquebrado gato nos entrou na alma.

 

Ao abrir a porta pela manhã, lá estava o nosso hóspede de honra a nos assegurar, com a sua frágil condição, a presença de Deus. Ainda bem que Deus é Deus dos fracos – e humildes de coração. São eles que nos confundem, dizem as Escrituras. O gato nos enchia de alegria e de prazer ao lhe servirmos o que Deus nos encomendou. Ele era parte da criação. E, como parte dela, carecia de assistência e compreensão. O gatinho amarelo passou a ser parte integrante da nossa vida diária.

 

Tínhamos o máximo de cuidado com Otta, nosso cachorro de longa data, que não queria acordo nem consegue entender o nosso arrazoado. Ele veio e se estabeleceu para ser inimigo dos gatos e assim cumpria o seu papel. Tentei várias vezes convencê-lo do contrário para me decepcionar a cada vez. Otta o odiava de um ódio mortal como alguns odeiam certos preceitos de Deus. Ainda tinha Cindy para ajudá-lo na tarefa, Cindy, a minha nora canina que nos visita a cada dois ou três dias para alegria de Otta. Felizmente, não conseguiram destruir o nosso hóspede-amigo.

 

Ele já chegou alquebrado. Velho e doente, não esbanjava vigor. As suas forças já se tinham esvaído na quase totalidade. Marchava lenta, mas decididamente, em direção à porta dos fundos. Queria comida e em troca nos dedicava amor e doçura.

 

Já na reta final, desapareceu por seis ou sete dias. Conformados com os ditames da criação, nos resignamos à sua memória. Que havia sido feito dele? – conjecturávamos. Apodreceu em algum canto sombrio? Serviu de comida aos urubus? Encheu mais um pouco a lata de lixo de alguma casa próxima?

 

De repente apareceu. Magro e remelento reapareceu. Surgiu na frente de Otta que, sem se fazer de rogado, mostrou os dentes. Tive tempo e reação suficientes para conter Otta que teimava em pegá-lo. Tentamos alimentá-lo e insistimos para que bebesse um pouco d’água. Sem sucesso tentamos.

 

Recolhido em um dos cantos do quintal, abrigado em um antigo refúgio de cágados, pacientemente esperou o seu destino. Fiz-lhe alguns agrados a afagos. Na última vez, simplesmente me lançou o seu olhar de morte. Baixou a cabeça… e entregou-se à eternidade!

 

Claro que choramos a partida de um simples animal que se fez nosso amigo muito mais pelo seu papel na criação que pelo reles punhado de ração felina. Os amigos, Deus nos dá. Chegam e enriquecem a nossa vida. E partem deixando um vazio difícil de superar.

 

Nós o colocamos em uma caixa de sapatos. As flores do nosso jardim o acompanharam na sua derradeira viagem sideral. Baixou à sepultura, no nosso jardim, banhado nas nossas lágrimas. Nos deixou mortos de saudade, o que compartilhamos com os nossos leitores que sabem jamais perder a ternura. Os fatos simples da vida tornam grande a História.

 

O final? Mais comprometimento com o próximo, com os amigos e com a Natureza. Foi a mensagem e o legado que nos deixou um velho e experiente gato mandado por Deus.

 

Francisco Nery Júnior




 



3 pensamentos em “Um gato que nos fez ver a Deus. Por Francisco Nery Júnior”

  1. “Corte um pedaço de madeira e lá estarei, levante uma pedra e me encontrarás.”
    Acolha um criatura doente e faminta, e assim como o fizerdes a um irmão humano, O encontrarás.

  2. Professor Francisco Nery, fui seu aluno na saudosa Escola Fazenda Chesf. Seus textos são primorosos, dotados de excelente conteúdo que nos fazem refletir. Parabéns pela singela e profunda analogia a vida, a Deus e todos os seres de nosso mundo.

  3. Data vênia dos leitores, fica esta crônica dedicada a Pedro Freitas, o maior e mais consciente amigo dos gatos de Paulo Afonso. A ele a nossa admiração. Belo exemplo, Pedro!

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