2 de dezembro de 2021

CRÔNICA – Nos tempos da Escola Rural (Francisco Nery Júnior)

Por

Redação (pa4.com.br)

(Foto: Antônio Galdino e acervo do autor)

Os padres são cultos. Cama e mesa garantidas, danam a ler. Barriga cheia, meditam, oram, rezam e – fundamental – leem. O que se nos apresenta [ainda] de dentro para fora é a rigidez do comportamento. Inferimos bispos compenetrados e exigentes como exigente é a regência da vida.

Uma das vias é a dos padres cantores. Cantam, alguns até viram e rebolam e, queremos crer, o fazem para conquistar novos fiéis da era moderna do consumismo e do, digamos, desprendimento. Olhando bem nas entrelinhas, deixam perceber leitura, meditação, rigidez e comprometimento com a sua Igreja.

Tudo isso, leitor, para dizer que no tempo desta escrita, eu deveria estar colocando a roupa, tirando o carro da garagem e saindo para pegar o relógio no conserto, comprar ovos e desodorante; a mulher a fustigar pelo “cumprimento” do dever. Otta, como sempre, ao meu lado, ao lado do computador, inspiração providencial para o que vai sair da pena. Os padres – embora ciente que trabalham muito, de fato trabalham – têm o privilégio de poder se concentrar, produzir e, assim, conseguem manter a Instituição de pé por vários séculos.

A intenção é relembrar a Escola Rural, projeto de quem enxergava um Nordeste de futuro e usava a Chesf para tentar uma alavancagem de desenvolvimento que desconfiamos finalmente virá com os projetos de energia eólica e energia solar – se deixarem e se soubermos votar.

Estamos enquadrando a Escola Rural, escola eminentemente da professora Dirce Georgina, vinda do Rio de Janeiro com costas quentes que lhe davam tranquilidade para se concentrar nos aspectos eminentemente educacionais da escola, deixando os aspectos marginais para segunda consideração. Vamos nos lembrando da verdadeira enxurrada (não é exagero) de amigos que lá fizemos. Eles, alunos que vinham de papa-fila da Chesf, doçura que eu também tive a chance de saborear quando me deslocava de ônibus, umas poucas vezes no último bonde do Rio Vermelho, do centro de Salvador para o Ginásio Manoel devoto.

(Foto: Antônio Galdino e acervo do autor)

A Escola Rural, espécie de território semi-independente, pelo menos assim eu a via – ou percebia -, um Vaticano, Mônaco, ou Escócia ou Irlanda; talvez uma providencial Londres do exílio de Caetano e Gil, foi um celeiro de fazer amigos agora cinquentões e sessentões, constituintes do núcleo duro de Paulo Afonso. Alguns longe no “trecho” a morrer de saudade da sua cidade, dos amigos, da formação e da tradição, e nós outros deles.

A viagem da vida acontece aos solavancos. Assim é bom e assim somos empurrados para a frente. Dificuldades e provas nos capacitam em última análise. Ao redor da Escola Rural, criação de aves e porcos – e o enxame, nuvem ou praga de moscas a atanazar a nossa permanência em sala de aula. Por mais de uma vez, uma foi parar no estômago de algum de nós. Foi o caso da professora Elza que engoliu uma delas de carona no fluxo de ar para os pulmões.

Mais para trás, na chegada a Paulo Afonso, por falta de alojamento, colocaram uns cinco de nós no que chamaram de cooperativa em uma casa atrás do Clube Operário. Na hora do almoço, comida à mesa e pratos à mostra. As moscas faziam a festa. Rodavam, pousavam e se refestelavam antes de nós. Provavam o manjar e enchiam a pança – antes de devolverem, como tempero adicional, sobre a comida, os restos do manjar do dia anterior. Minha primeira incompatibilidade por lá. O líder do grupo, cabra cheio de si dos bons, alegava ser um bom serviço das moscas para a aquisição de anticorpos (sic). Eu conseguia comer alguma coisa que conseguia escumar e emagreci alguns quilos.

Mas nós resistíamos com garbo! O calor era grande e, suados, às vezes nos assustávamos com o sinal inesperado do sistema de som e o “atenção” da professora Dirce, na maioria das vezes para resolver um caso de “indisciplina” de um dos nosso heróis dentro do papa-fila. Não é exagero, não é hipocrisia: lembramos com gosto de todos os nossos colegas e servidores. Nós os amamos do fundo do nosso coração – sem exceção. Sem exceção mesmo! A dureza de algumas das nossas decisões se baseava na observação da eficiência das ações dos nossos pais, formadores, parentes e mestres.

Todos os meus irmãos estudaram no Ginásio Severino Vieira, colégio respeitado de Nazaré. Meu pai perdeu o bonde do tempo e, encerrados os expedientes, teve que me matricular no Manoel Devoto, no Rio Vermelho ainda longe e provincial, onde eu encontrei a professora Maria Magalhães, a melhor professora de inglês do meu caminho de formação. Ela estruturou e colocou em prática o melhor curso de inglês que já tive a oportunidade de conhecer. Em vão – e com os desgastes não surpreendentes – tentei aplicá-lo em Paulo Afonso.

Da Esquerda: Professores Juvenal, Perpétua, Naedja, José Fernandes e Socorro Jucá. (Foto: Antônio Galdino e acervo do autor)

Em Salvador, a Providência me colocou no Manoel Devoto do diretor Mário Câmera e da professora Maria Magalhães. Em Paulo Afonso, me colocou na Escola Rural da professora Dirce Georgina, professoras Socorro Jucá, Elzinha, Marisa, Perpétua, professores Anchieta, Jurandir, Betinho, Erasmo e Marcos de Barros, dentre outros.

E os mantenedores e colaboradores da escola que resumimos nos dois “Joões”, e a legião de alunos amigos das horas incertas, as minhas amigas de escrever no quadro de giz me salvando da minha grafia horrorosa e incompreensível.

Dos tempos dos cartões de boas-festas e dos agradecimentos, uma caixa cheia nos meus arquivos, comigo até o último suspiro!

Por Francisco Nery Júnior

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COMENTÁRIOS

Comentários 2

  1. ANTONIO SILVINO CAETANO SANTOS says:

    Sem falar no momento da chamada em que todos estavam presentes, mas ,por não responder a chamada, levavam falta……kkkkkkkkkkkkk

    Filho de Jerônimo do CFPPA.

  2. Francisco Nery Júnior says:

    Brilhante comentário! Comentário autoexplicativo; fala por si só! Poupa o trabalho de interpretação. Francisco Nery Júnior, amigo do grande Jerônimo do CFPPA. Sem kkkkkkkk.

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