13 de junho de 2021

Brasileiro, triste ou humano? (por Evelyn Santana)

Por

Redação (pa4.com.br)

[1] Evelyn Santana

Muito tem sido falado nos últimos meses acerca dos aspectos econômicos, sociais e políticos que permeiam o momento vivenciado. Quando pontuamos aspectos correlacionados a crise global, nesse caso:  a pandemia de Covid- 19 faz-se necessário que nosso olhar seja crítico, questionador, que estejamos lúcidos e com os pés no chão. Dessa maneira, todas as vezes que em textos escritos, postulei acerca de medidas políticas que incidem na saúde, o fiz por acreditar que em uma sociedade… seja no contexto educacional, no âmbito da saúde, dos movimentos sociais, ou de qualquer viés de viabilização de direitos, existirá uma ação política ou ideológica por trás, sendo ela partidária ou não.

Hoje, acredito que vivemos múltiplos sentimentos coletivos, apesar da forte crença de que esses estejam no âmago do individual.  Mudanças geram mudanças. Sendo positivas, irão refletir de forma positiva. O contrário, majoritariamente, gera reações adversas. Por vezes pode impulsionar um posicionamento de resistência e persistência ou apenas projetar-se de forma negativa. Por que estou nos perguntando se somos brasileiros, tristes ou humanos? Nisso me incluo, obviamente. Essa pergunta não é algo que não tenha sido embasada nos últimos fatos. E alguns fatos não podem ser simplesmente sublimados. Nossa realidade atual pode ser vista enquanto um cenário de mudanças. E, transitórias ou não, elas recaem sobre nossas perspectivas e ações.

Ilustração: Lavínia Ferreira, Evelyn Santana 2021

Muitos de nós, se não a maioria… Coabita entre sentimentos de esperança, crença, revolta, medo e necessidade de prosseguir. Em alguns dias acordamos com ânimo, em outros com uma angústia por adequação. O home Office virou uma realidade, a restruturação de serviços que antes eram presenciais, mudanças de áreas profissionais, ou perda de emprego, devido aos fatores citados anteriormente. Então, sem notar, corremos em uma maratona por sobrevivência diante do que nos foi imposto. Lutamos para produzir ao máximo, para gerar conteúdos, renovar nossos negócios, criar fontes de renda, corremos… Corremos porque o tempo não espera nosso tempo de adequação. Entretanto, constato que não estamos em estado de metamorfose por livre e espontânea vontade. Precisamos comer, pagar contas, os filhos seguem nas escolas. O que quero dizer é que nos vimos obrigados a lutar para sobreviver diante da ameaça do vírus e obrigados a sobreviver diante de uma sombra que nos persegue antes mesmo dessa crise: A sobrevivência em um sistema desigual, em que a riqueza está distribuída em poucas mãos. O que podemos fazer?

Em primeira instância, podemos admitir que não somos máquinas. Sim, somos humanos.  O segundo ponto é que estamos inseridos em uma realidade social estruturalmente desigual, desde os primórdios. E a crise acentuou e escancarou essas desigualdades… O que nos levou para essa “corrida maluca” sem que ao menos tivéssemos consciência dos obstáculos que iriamos enfrentar. Por fim, e pelo bem de nossa sanidade mental, parte salutar para nossa sobrevivência…Não devemos naturalizar nossa frustração quando conseguimos alcançar nossas metas. Haja vista, o fato de nem sempre as metas acompanharem nossa humanidade. Não é possível que ciente das dificuldades que se associam ao “ser brasileiro” hoje, não posso pedir ou sugerir que deixemos de lutar. O que posso sugerir é que lutemos contra os que nos oprimem, nos impõem demandas DE-sumanas, preços impossíveis de acompanhar, ao invés de cobrarmos a nós mesmos.  Somos brasileiros e humanos. Isso é ponto. Iremos trocar nossa possibilidade de bem-estar pelo pão de cada dia? Ou lutar pelas duas esferas que são nossas por direito? Caro, leitor. Existem dívidas que são exclusivamente nossas. Essas são de nossa responsabilidade. Devemos pagar pelas que não são também?

 

[1] Assistente Social, Pesquisadora pela UFAL em Políticas Públicas e Processos Organizativos da Sociedade, Esp. Em Gestão de Políticas Públicas e rede de defesa de direitos, pós-graduanda em docência em Ensino  Superior, pesquisadora no grupo Feminismo entre teoria e prática, Assessora Acadêmica

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