2 de dezembro de 2021

Desabafo: Morte de paciente com AIDS em Paulo Afonso deixa psicóloga indignada

Por Fabiana Veloso**

Quero registrar minha indignação e tristeza ao saber da morte de um dos oitenta e quatro pacientes que, ao sair, deixei no SETA – Serviço de Testagem e Aconselhamento em Paulo Afonso. Quando fui, assim como a minha equipe, sem a menor consideração ou elegância, demitida pela atual gestão do município. Inescrupulosamente, nomearam minha melhor amiga para me substituir temporariamente, obrigando-nos a construir juntas o PAM (Plano de ações e Metas), para o qual somente eu estava capacitada.

Entre lágrimas, ela (Kelma – demitida logo após a aprovação federal do PAM) lamentava que tivesse que fazer o que considerava uma violência comigo. E eu ajudei a equipe, mesmo chorando de dor, em consideração aos seres humanos fantásticos que encontrei à deriva em 2002, quando fui admitida. Na época, foi necessário que junto à técnica de enfermagem Naidinha e professora Risalve (pelas quais tenho profunda admiração e carinho), tivéssemos que entrar nos becos excluídos de Paulo Afonso para fazer palestras e conquistar a confiança daqueles que viviam a dura realidade de só conhecer às DSTs preenchendo as estatísticas que marcavam ascendente número de infecções nessa cidade.

Passei anos visitando e apenas agendando ambulância para levar pacientes aos centros de referência; Salvador, Maceió, Aracaju entre outros. Agradeço às equipes dessas unidades que os recebiam muitas vezes gerando vagas que nem existiam, dado o nosso bom relacionamento e reconhecimento do nosso esforço. Os pacientes eram pessoas com quadros avançados de AIDS, muitas vezes pensei que não voltariam mais. Surpreendentemente, graças a Deus, eles não só voltavam como brilhantemente reassumiam suas vidas, e nos provavam que o que fizéssemos por eles valeria a pena.

Assim, o Programa Municipal DST/AIDS de Paulo Afonso foi tomando forma,  o GAPA BAHIA (Grupo de Apoio e Prevenção a AIDS) se tornou parceiro e a Coordenação Estadual (Edvânia Landim e Maricélia Macêdo ) foram nossas mães para que a cidade tivesse visibilidade junto ao Ministério da Saúde. Com essa coordenação conseguimos orientação, insumos e capacitação, ingredientes necessários para que o programa evoluísse, tornando-se referência de pólo regional. Com projeto de um LACEN que deixamos encaminhadíssimo, microscópio de imunoflluorescência guardado no Centro Municipal de Saúde, juntamente com muitos itens de uma compra licitados no ano de 2008 para sua montagem, faltavam apenas algumas pipetas. Já havia inclusive dois técnicos do município treinados para realização dos exames confirmatórios, até então realizados somente em Salvador. Contingente considerável de preservativos, cestas básicas bem nutridas, que de básicas só tinham o nome, pois foram elaboradas carinhosamente e cuidadosamente por nós e a nutricionista e amiga Lucivânia Piancó (Lulú).

Um serviço público com cara de pra lá de privado, humanizado, feliz. Mas parece que a harmonia entre as pessoas incomoda. Passei seis anos da minha vida dedicados a essas pessoas, o HIV era só um detalhe. Graças aos comerciantes, amigos e parceiros, distribuíamos presentes, nos aniversários, palestras e eventos. Os recursos federais eram usados nas campanhas, entre outras datas importantes estava o Dia Internacional da Mulher, quando distribuímos 500 botões de rosas. Fizemos um concurso entre adolescentes que elegeram o raio e laço vermelho como símbolo da luta dessa cidade contra a AIDS, exposto em frente ao BRADESCO. Em dezembro do ano passado visitei a cidade de Paulo Afonso e me entristeci ao ver o laço apagado.

Quero registrar, caros munícipes que o estado do laço, nada mais é do que o reflexo da falta de compromisso com a causa.  Ao invés de estarem tão preocupados com suas campanhas, os gestores deveriam olhar além das suas necessidades e perceber que pessoas estão sem atendimento psicológico porque simplesmente não há empatia entre técnico (desculpe-me a colega) e pacientes. Elas hoje visitam o SETA para consultas e recebimento de medicamentos antiretrovirais, e isso descaracteriza de forma estrondosa o proposta do Programa DSTs/AIDS.

Conceitos precisam ser revistos, o programa é feito para o povo, deve servir para prevenir novas infecções e apoiar aqueles que vivem e convivem com o HIV. Não se deve morrer mais em função da AIDS. A maior oportunista é o preconceito e o medo que ele causa a quem é infectado. Ela matou um homem fascinante,  guerreiro com valores éticos e morais admiráveis, a quem tive a honra de conhecer. Mas a população precisa deixar de ver a AIDS como problema do vizinho. Quando é que vamos nos mobilizar para fazer algo? Quando tiver alguém do nosso afeto infectado? Pensem nisso. O SETA é da população, o gestor nada mais é do que um representante nomeado por nós para gerenciá-lo.

Estou muito feliz por poder desabafar, no meu tempo certo, fortalecida e não mais ameaçada de perder emprego algum. Sinto-me, com toda humildade, LIVRE.

Abraço a todos que participaram direta ou indiretamente da minha luta pessoal contra a AIDS .
Saibam que a partir de hoje não me negarei a apoiar um paciente com AIDS, mas será de GRAÇA.

 

**Fabiana Veloso, Psicóloga, foi Coordenadora Municipal DST-AIDS de setembro de 2002 a dezembro de 2008, trabalhou na assistência do programa. Treinada pela Coordenação Estadual DST-AIDS da Bahia, participou de vários cursos de gestão e assistência às pessoas vivendo com HIV-AIDS pelo Estado, em Salvador e capitais do Nordeste, totalizando 17 cursos.

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