Estou, na verdade, escrevendo no dia 26. Vinte e seis de dezembro; um dia após o dia 25, Natal! Jesus, o Cristo, deve ter nascido lá pelo mês de maio, se observarmos o contexto: Palestina, clima, costumes, contexto histórico, filologia. Vou dizer que estava a observar um garoto na praça no dia de Natal e você, leitor meu (você sabe a sua importância), vai acreditar. Também não quero que você tome como crítica a quem quer que seja o que vou escrever; muito menos crítica ao prefeito. A cidade é pequena e o nosso administrador não escapa do foco. É, de fato, a pessoa mais importante e sempre há os que são ágeis em associá-lo a qualquer assunto que comentamos. Sempre haverá os que são exímios em colocar palavras na nossa boca, ainda mais quando as palavras são escritas, estão inegavelmente impressas no papel. Não sou eu que vou lhe dizer o quanto é difícil lidar com pessoas.
Estava, no Natal – já convencionamos isto -, tomando sorvete perto da praça, minha mulher e eu. Nada mais natural que tomar sorvete na praça de uma cidade quente. Esfria o corpo e esfria a alma. O professor Humberto César uma vez me disse nunca se permitir tomar decisões de cabeça quente. As decisões após um sorvete no centro de Paulo Afonso serão sempre as melhores. Devo esta conclusão ao amigo Humberto.
Estava, já disse, na calçada da sorveteria. Tomava sorvete e olhava em volta. Quem escreve tem obrigação de olhar em volta, senão nunca terá sobre o que escrever. Olhei, desta vez, para a frente e vi um garoto no outro lado. O pai havia atravessado a rua com ele a reboque e, literalmente, o soltou no meio da praça. Praça é praça e não pertence somente ao condor. As praças da cidade pertencem – e devem pertencer – às crianças. Novamente, leitor, apelo para você criança na esperança que vá endossar as minhas palavras. Você poderá dizer que elas pertencem aos velhos também. Eu vou redarguir que os velhos já foram crianças e a nossa querela fica equacionada. Para os velhos e para as crianças, as praças!
O garoto estava, então, no meio da praça. Começou a rodopiar. Fiquei curioso. Dois minutos depois, entendi: a única coisa que ele poderia fazer era rodopiar. Nada havia no amplo espaço com que pudesse interagir. Nada onde subir, nada por onde escorregar, nada de onde cair. Nada e absolutamente nada. Nada com que ocupar a sua alma de criança (a nossa está invariavelmente ligada nas nossas preocupações menores). Foi aí que o pai lhe trouxe um carrinho a bateria que ele foi puxando até que não mais o vi.
Se as praças são para as crianças, por que não contêm apetrechos para crianças?! Se eles ocupam e educam, por que não colocá-los aos montes nos lugares que deveriam ser, única e exclusivamente, paraísos para crianças? Se tais equipamentos têm um custo, que tal adquiri-los com o dinheiro que pagamos com o suor do nosso rosto?
E aqui paro abruptamente. Você sabe o que eu poderia estar escrevendo para encerrar o artigo. Apenas fico a imaginar se as minha palavras, que só se tornarão úteis após a sua leitura, surtirão algum efeito. Fico a imaginar por que me deu na telha escrever o que escrevi. Meu filho me aconselha a ficar bem quieto na segunda metade da minha vida. Mas como afirmou uma grande bailarina brasileira, depois de certa idade, a gente adquire o direito de ser sincero. Tudo terá valido a pena se os nossos administradores, daqui para a frente, transformarem as nossas praças, de simples áreas de contemplação, em verdadeiras áreas de lazer; para todos nós!
Francisco Nery Júnior





