31 de março de 2026

Estatuto do crime: facção baiana cria código de conduta inspirado no PCC

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É terça-feira, 14 de julho, e policiais da 3ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM) realizam incursão em uma localidade de Cajazeiras. Um homem, morador do bairro vizinho de Águas Claras, é abordado pelos policiais. Leandro Santos Moreira leva consigo munições, mas o que chama a atenção é um documento de quatro folhas com 11 tópicos e um pequeno texto de introdução, de três parágrafos, dobrado em um dos bolsos da bermuda.

O título, Estatuto da Katiara, é o mesmo que aparece em algumas imagens que circulam através do aplicativo WhatsApp e que já chegaram às mãos de PMs e delegados. “Comparei o documento que via circulando nas redes sociais com o que estava em poder de Leandro e é o mesmo”, contou o tenente Josuel Lopes, comandante interino da 3ª CIPM (Cajazeiras).

 

Para marcar território, traficantes picham paredes com nome de facção
(Foto: Evandro Veiga / Arquivo Correio)

O estatuto estabelece diversas diretrizes que devem ser seguidas pelos membros da facção – desde critérios para novos membros até regras para empréstimos, luto, caixinha mensal e até ajuda às famílias (ver quadro no rodapé). São as determinações que regem o tráfico de drogas em vários municípios do Recôncavo e que vêm ganhando espaço em Salvador.

A Katiara é liderada por Adílson Souza Lima, o Roceirinho, que está preso desde 2012, mas, segundo a polícia, controlava, de dentro do presídio de Serrinha, no Centro-Norte do estado, o tráfico em Maragojipe, Salinas da Margarida, Itaparica, Nazaré das Farinhas, Vera Cruz, Santo Antônio de Jesus e Santo Amaro, no Recôncavo. Desde maio, o traficante se encontra no presídio federal de Campo Grande (MS).

Capital
Em Salvador, Roceirinho domina parte do bairro de Valéria, Águas Claras e Lobato. No último dia 24, uma chacina deixou quatro mortos – entre eles, o policial militar Osvaldo Costa da Conceição Filho, 49 anos, e o filho dele, Railander, 24, em uma chacina na localidade de Nova Brasília de Valéria, próxima à Lagoa da Paixão, antigo território do traficante Cebola, morto este ano, supostamente a mando de Roceirinho. Nas redes sociais, comenta-se que a autoria das mortes seria de indivíduos conhecidos como Pinha, Tarugo e Tcheca, da Katiara, o que não foi confirmado pela Polícia Civil. Luiz Cláudio Sena dos Santos, 27 anos, conhecido como Tarugo, morreu na madrugada de sexta-feira em um confronto com a Rondesp. A Polícia Civil confirmou que ele era um dos suspeitos, mas não atribui o ataque à facção.

No entanto, o delegado Nilton Borba, titular da 5ª Delegacia (Periperi), disse que a chacina tinha relação com a disputa por território do tráfico de drogas entre os bairros de Valéria e Fazenda Coutos.

 

Roceirinho seria um dos três fundadores da facção: está preso no Mato Grosso do Sul
(Foto: Polícia Civil)

Afirmação
Para o tenente Josuel Lopes, da 3ª CIPM, o estatuto é uma forma de estabelecer alguma organização. “São grupos que, para se autointitular como grupo organizado, estabelecem regras que garantem que as quadrilhas existam de fato”, diz. O juiz Flávio Oliveira Lucas, titular da 18ª Vara Federal do Rio de Janeiro e autor de artigos sobre organizações criminosas e Poder Judiciário, analisou o documento a pedido do CORREIO. Para ele, “os princípios parecem ter sido quase copiados dos que são divulgados e atribuídos ao PCC (facção com base em São Paulo)”. Mas, segundo ele, estatutos escritos são a marca de organizações criminosas primárias. “Somente as organizações mais primárias, como as que normalmente temos aqui, é que possuem códigos de ética escritos”, aponta ele.

O juiz explica que essas organizações não possuem uma estrutura verdadeiramente consolidada e rígida, o que leva tempo, e que os valores e regras ficam à mercê da vontade do líder. “Tome-se como base a Máfia ou a Camorra, organizações que já atuam há mais de um século e que, por terem se formado em vilarejos, acabam incorporando os valores locais e tendo-os como regras. Nelas, não há sequer necessidade de se escrever o que vale ali, pois os princípios já estão incorporados às mentalidades”, exemplifica. O diretor do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), delegado Jorge Figueiredo, reconhece a existência do estatuto, mas pondera. “Não é uma prova de que eles estão se organizando. As pessoas no mundo virtual estão copiando a realidade de outros estados e países e tentando avocar para suas cidades”, declara ele.

Origens
O texto de introdução do Estatuto da Katiara diz que o documento foi idealizado por três integrantes, chamados de “irmãos 33, 01, 35” e que o já criado Primeiro Comando do Recôncavo passava a se chamar Katiara a partir de 16 de outubro de 2013, em “prol de trazer uma nova imagem com transparência e verdade para fortalecer o crime no estado da Bahia”.

A todo momento, o grupo de criminosos se intitula uma facção e segue os moldes de outras organizações criminosas do país, com quem mantém laços estreitos: a A.D.A (Amigos dos Amigos), a maior do Rio de Janeiro, e o PCC (Primeiro Comando da Capital), em São Paulo.

O juiz federal Flávio de Oliveira Lucas, que analisou o estatuto a pedido do CORREIO, disse chamar a atenção as ligações que a Katiara afirma ter com outras facções. Ele chamou de “preocupante” a notícia de que a facção vem estabelecendo contatos e parcerias com as de outros estados.

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Terceiro fundador da Katiara, Mamano foi achado morto em novembro do ano passado
(Foto: Polícia Civil)

Organizados?
Apesar da existência do documento, há delegados que consideram a Katiara um grupo desorganizado. Roberto Alves, que substitui a titular Olveranda Oliveira na 13ª Delegacia (Cajazeiras), pontuou que é complicado falar em conduta de qualquer organização criminosa. No entanto, se posiciona ao considerar improvável que o grupo tenha uma ��������¹P�� ��

É terça-feira, 14 de julho, e policiais da 3ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM) realizam incursão em uma localidade de Cajazeiras. Um homem, morador do bairro vizinho de Águas Claras, é abordado pelos policiais. Leandro Santos Moreira leva consigo munições, mas o que chama a atenção é um documento de quatro folhas com 11 tópicos e um pequeno texto de introdução, de três parágrafos, dobrado em um dos bolsos da bermuda.

O título, Estatuto da Katiara, é o mesmo que aparece em algumas imagens que circulam através do aplicativo WhatsApp e que já chegaram às mãos de PMs e delegados. “Comparei o documento que via circulando nas redes sociais com o que estava em poder de Leandro e é o mesmo”, contou o tenente Josuel Lopes, comandante interino da 3ª CIPM (Cajazeiras).

 

Para marcar território, traficantes picham paredes com nome de facção
(Foto: Evandro Veiga / Arquivo Correio)

O estatuto estabelece diversas diretrizes que devem ser seguidas pelos membros da facção – desde critérios para novos membros até regras para empréstimos, luto, caixinha mensal e até ajuda às famílias (ver quadro no rodapé). São as determinações que regem o tráfico de drogas em vários municípios do Recôncavo e que vêm ganhando espaço em Salvador.

A Katiara é liderada por Adílson Souza Lima, o Roceirinho, que está preso desde 2012, mas, segundo a polícia, controlava, de dentro do presídio de Serrinha, no Centro-Norte do estado, o tráfico em Maragojipe, Salinas da Margarida, Itaparica, Nazaré das Farinhas, Vera Cruz, Santo Antônio de Jesus e Santo Amaro, no Recôncavo. Desde maio, o traficante se encontra no presídio federal de Campo Grande (MS).

Capital
Em Salvador, Roceirinho domina parte do bairro de Valéria, Águas Claras e Lobato. No último dia 24, uma chacina deixou quatro mortos – entre eles, o policial militar Osvaldo Costa da Conceição Filho, 49 anos, e o filho dele, Railander, 24, em uma chacina na localidade de Nova Brasília de Valéria, próxima à Lagoa da Paixão, antigo território do traficante Cebola, morto este ano, supostamente a mando de Roceirinho. Nas redes sociais, comenta-se que a autoria das mortes seria de indivíduos conhecidos como Pinha, Tarugo e Tcheca, da Katiara, o que não foi confirmado pela Polícia Civil. Luiz Cláudio Sena dos Santos, 27 anos, conhecido como Tarugo, morreu na madrugada de sexta-feira em um confronto com a Rondesp. A Polícia Civil confirmou que ele era um dos suspeitos, mas não atribui o ataque à facção.

No entanto, o delegado Nilton Borba, titular da 5ª Delegacia (Periperi), disse que a chacina tinha relação com a disputa por território do tráfico de drogas entre os bairros de Valéria e Fazenda Coutos.

 

Roceirinho seria um dos três fundadores da facção: está preso no Mato Grosso do Sul
(Foto: Polícia Civil)

Afirmação
Para o tenente Josuel Lopes, da 3ª CIPM, o estatuto é uma forma de estabelecer alguma organização. “São grupos que, para se autointitular como grupo organizado, estabelecem regras que garantem que as quadrilhas existam de fato”, diz. O juiz Flávio Oliveira Lucas, titular da 18ª Vara Federal do Rio de Janeiro e autor de artigos sobre organizações criminosas e Poder Judiciário, analisou o documento a pedido do CORREIO. Para ele, “os princípios parecem ter sido quase copiados dos que são divulgados e atribuídos ao PCC (facção com base em São Paulo)”. Mas, segundo ele, estatutos escritos são a marca de organizações criminosas primárias. “Somente as organizações mais primárias, como as que normalmente temos aqui, é que possuem códigos de ética escritos”, aponta ele.

O juiz explica que essas organizações não possuem uma estrutura verdadeiramente consolidada e rígida, o que leva tempo, e que os valores e regras ficam à mercê da vontade do líder. “Tome-se como base a Máfia ou a Camorra, organizações que já atuam há mais de um século e que, por terem se formado em vilarejos, acabam incorporando os valores locais e tendo-os como regras. Nelas, não há sequer necessidade de se escrever o que vale ali, pois os princípios já estão incorporados às mentalidades”, exemplifica. O diretor do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), delegado Jorge Figueiredo, reconhece a existência do estatuto, mas pondera. “Não é uma prova de que eles estão se organizando. As pessoas no mundo virtual estão copiando a realidade de outros estados e países e tentando avocar para suas cidades”, declara ele.

Origens
O texto de introdução do Estatuto da Katiara diz que o documento foi idealizado por três integrantes, chamados de “irmãos 33, 01, 35” e que o já criado Primeiro Comando do Recôncavo passava a se chamar Katiara a partir de 16 de outubro de 2013, em “prol de trazer uma nova imagem com transparência e verdade para fortalecer o crime no estado da Bahia”.

A todo momento, o grupo de criminosos se intitula uma facção e segue os moldes de outras organizações criminosas do país, com quem mantém laços estreitos: a A.D.A (Amigos dos Amigos), a maior do Rio de Janeiro, e o PCC (Primeiro Comando da Capital), em São Paulo.

O juiz federal Flávio de Oliveira Lucas, que analisou o estatuto a pedido do CORREIO, disse chamar a atenção as ligações que a Katiara afirma ter com outras facções. Ele chamou de “preocupante” a notícia de que a facção vem estabelecendo contatos e parcerias com as de outros estados.

http://c7.sttc.net.br/uploads/RTEmagicC_valeria-trafico-x5.jpg.jpg

Terceiro fundador da Katiara, Mamano foi achado morto em novembro do ano passado
(Foto: Polícia Civil)

Organizados?
Apesar da existência do documento, há delegados que consideram a Katiara um grupo desorganizado. Roberto Alves, que substitui a titular Olveranda Oliveira na 13ª Delegacia (Cajazeiras), pontuou que é complicado falar em conduta de qualquer organização criminosa. No entanto, se posiciona ao considerar improvável que o grupo tenha uma ��������¹P�� ��

É terça-feira, 14 de julho, e policiais da 3ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM) realizam incursão em uma localidade de Cajazeiras. Um homem, morador do bairro vizinho de Águas Claras, é abordado pelos policiais. Leandro Santos Moreira leva consigo munições, mas o que chama a atenção é um documento de quatro folhas com 11 tópicos e um pequeno texto de introdução, de três parágrafos, dobrado em um dos bolsos da bermuda.

O título, Estatuto da Katiara, é o mesmo que aparece em algumas imagens que circulam através do aplicativo WhatsApp e que já chegaram às mãos de PMs e delegados. “Comparei o documento que via circulando nas redes sociais com o que estava em poder de Leandro e é o mesmo”, contou o tenente Josuel Lopes, comandante interino da 3ª CIPM (Cajazeiras).

 

Para marcar território, traficantes picham paredes com nome de facção
(Foto: Evandro Veiga / Arquivo Correio)

O estatuto estabelece diversas diretrizes que devem ser seguidas pelos membros da facção – desde critérios para novos membros até regras para empréstimos, luto, caixinha mensal e até ajuda às famílias (ver quadro no rodapé). São as determinações que regem o tráfico de drogas em vários municípios do Recôncavo e que vêm ganhando espaço em Salvador.

A Katiara é liderada por Adílson Souza Lima, o Roceirinho, que está preso desde 2012, mas, segundo a polícia, controlava, de dentro do presídio de Serrinha, no Centro-Norte do estado, o tráfico em Maragojipe, Salinas da Margarida, Itaparica, Nazaré das Farinhas, Vera Cruz, Santo Antônio de Jesus e Santo Amaro, no Recôncavo. Desde maio, o traficante se encontra no presídio federal de Campo Grande (MS).

Capital
Em Salvador, Roceirinho domina parte do bairro de Valéria, Águas Claras e Lobato. No último dia 24, uma chacina deixou quatro mortos – entre eles, o policial militar Osvaldo Costa da Conceição Filho, 49 anos, e o filho dele, Railander, 24, em uma chacina na localidade de Nova Brasília de Valéria, próxima à Lagoa da Paixão, antigo território do traficante Cebola, morto este ano, supostamente a mando de Roceirinho. Nas redes sociais, comenta-se que a autoria das mortes seria de indivíduos conhecidos como Pinha, Tarugo e Tcheca, da Katiara, o que não foi confirmado pela Polícia Civil. Luiz Cláudio Sena dos Santos, 27 anos, conhecido como Tarugo, morreu na madrugada de sexta-feira em um confronto com a Rondesp. A Polícia Civil confirmou que ele era um dos suspeitos, mas não atribui o ataque à facção.

No entanto, o delegado Nilton Borba, titular da 5ª Delegacia (Periperi), disse que a chacina tinha relação com a disputa por território do tráfico de drogas entre os bairros de Valéria e Fazenda Coutos.

 

Roceirinho seria um dos três fundadores da facção: está preso no Mato Grosso do Sul
(Foto: Polícia Civil)

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Para o tenente Josuel Lopes, da 3ª CIPM, o estatuto é uma forma de estabelecer alguma organização. “S

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