Por João Clareno Medalha
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Na tão esperada festa de São João, o forró feito com arte, poesia e prazer criativo vai continuar sendo ignorado. É triste ouvir e ver o que está sendo oferecido e vendido como forró, especialmente aqui no Nordeste. Mas é o sinal dos (péssimos) tempos.
Não há a menor vontade, pela maioria das pessoas que ouvem o ‘forró moderno’, de tentar perceber se ele é bom ou não. O que defini se ele é bom é a quantidade de vezes que é ouvido. Ou seja, tudo que for repetidamente tocado em rádios, carros e em toda parte é, sem dúvida, bom. Será que vivemos um momento sem igual na nossa região, em que todas as músicas produzidas são maravilhosas? Não, é óbvio que não. A explicação é simples: perdemos a noção do que é feito com qualidade. Vivemos a inversão total: quanto pior, melhor.
Jamais quero cair no erro de dizer que só o que ouço tem valor. No entanto, hoje, quase tudo que se ouve ou se dança, independente do que está sendo dito ou destacado, é simplesmente aceito. A condição, quase inalterável, é que o tema seja relacionado a sexo, à bebida e à futilidade. Nãoo quero dizer que músicas precisam discutir temas profundos, mas que possam variar de temas, mostrar, minimamente, originalidade.
Mas como variar, se o que boa parte de nós quer é a repetição. Assistam dez shows desse ‘forró atual’ e estarão vendo e ouvindo a mesma banda. O mesmo timbre de voz, as mesmas músicas, as mesmas coreografias. Se você fechar os olhos, e não souber quem vai tocar, será impossível perceber a diferença. A única coisa que muda é a fama e o nome do grupo. Por isso que se repete tanto o nome das bandas no meio das músicas, pois essa é a única maneira de dar destaque ao que é cada vez mais igual.
Francamente, não tenho mais a ilusão de ver muita gente percebendo o óbvio: o que é feito ou não com qualidade. Sabemos que cada vez mais as pessoas estão desistindo de pensar, pois assim é mais fácil. Se o outro gosta, se todo mundo está ouvindo, deve ser bom, e eu também devo gostar. O lixo é luxo. E o luxo é consumir cada dia mais o lixo que nos apresentam. Pra quê qualidade, se poucos vão perceber?
Discordo. Qualidade me dá gosto e uma mínima esperança de evolução. É como disse o saudoso Accioly Netto, um dos poucos e legítimos poetas do forró, na sua bela música ‘A Natureza das Coisas’: “Se avexe não./ Amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada./ A lagarta rasteja até o dia em que cria asas”. Embora quase tudo seja NADA no ‘forró atual’, ainda há gente que espera que a arte possa continuar criando ASAS.
Por isso fico feliz que ainda tenha, aqui na nossa cidade, gente com sensibilidade e que reconhece a importância de verdadeiros artistas como Flávio José, Jorge de Altinho, Flávio Leandro, etc. E caso alguém ainda não tenha ouvido e visto o bálsamo para os sentidos, chamado Clã Brasil**, se não tem a menor idéia do que é arte, e música feita com beleza, esta é a sua chance. Um São João em paz.
** O Clã Brasil se apresenta em Paulo Afonso na próxima quinta-feira (23), no Parque de Exposições. Veja abaixo um trecho do DVD do grupo!





