Gecildo Queiroz
AMIZADE, A PALAVRA DESGASTADA
Sou péssimo para lembrar de datas. Se dependesse de mim, não teria lembrado que amanhã, dia 20, é comemorado o DIA DO AMIGO. Mas alguém me enviou por e-mail uma mensagem e acabei sabendo. Tenho uma convicção (aliás, há poucas convicções sólidas nesta vida mutável): a existência seria mais dura do que testemunhamos se não fosse a AMIZADE. No entanto, talvez esta seja a palavra mais mal empregada de que se tem notícia. É provável que esse mau uso ganhe, inclusive, da palavra AMOR, que é vendida em calçadas e músicas, a rodo, como artigo barato e descartável.
É assim que tudo que é humano tem sido. Estamos tão perdidos diante de apelos materiais e midiáticos que sequer percebemos nossa tendência para estragar tudo e, pior, destruir o que ainda nos dá o mínimo de dignidade e sentido. Colaborando com uma prática diária que só leva à mediocridade e à negação do que é essencial e valioso. Há exigências sociais nos obrigando a seguir modelos (quase sempre pré-fabricados e mal-intencionados) que cada vez mais se distanciam de nossa condição de seres únicos e fertéis. Gente que é capaz de se construir, mesmo com dificuldades e dores, contudo, e acima de tudo, não se destruindo tentando montar fantoches estúpidos, encomendados por moldes impostos.
Temos cada dia mais “amizades”: ORKUT, MSN, enfim, em todas as redes sociais e de relacionamentos on line de que se tem conhecimento. Somos visitados em todos esses virtuais espaços. A pergunta é, quem frequenta, na nossa frágil condição interna de confusos seres humanos, as nossas almas reais e carentes de presença, afeto, e compreensão? Estamos sendo tão excessivamente externos nessa busca incessante por
fingir o que não somos e seguir modas que nos violentam, que a fortaleza de dentro criada por nós, de paredes falsamente rígidas, vive só, sem um real gosto de existir e compartilhar o que acreditamos, o que não sabemos, o que não conseguimos ser e o que de fato nos encanta. Isso tudo por medo de não sermos descolados, não seguirmos a moda vigente.
Agradeço a todo mundo por quem eu tenho boas amizades. Fico grato em saber que, embora raras, eu as tenho. Dessas que nos apertos naturais da existência, carregam uma mágica nem um pouco sofisticada; dessas que não precisam de palavras, às vezes, apenas de presença e identificação humanas; dessas que carregam no toque, no afeto e no abraço, não apenas a expressão física de apoio, mas a confirmação de que não se está sozinho em toda essa loucura autorizada.
Se mudarmos, se melhorarmos, quem sabe teremos mais amizades que vivam, não de perfeição, pois não há relações sem erros, pelo contrário, nas falhas devemos demonstrar ainda mais amizade. Quem sabe um dia perceberemos que a verdade e o amor, mesmo na dúvida natural que carregamos, é indispensável. E que isso seja maior do que o apelo à deslealdade e à sujeira gratuita e danosa que temos visto
escorrer por toda parte. Quem sabe, desse modo, seja possível cultivar mais oásis nesta aridez que tem se tornado a vida. Ou isso, ou se contentar com as palavras de Epiteto, um filósofo grego: Na prosperidade é muito fácil encontrar amigos, na
adversidade não há nada mais difícil.




