Trata-se de uma volta a 1974 quando cheguei em Paulo Afonso transferido de Salvador no cargo de professor do Colepa. A Chesf tinha um serviço de ensino no Acampamento e precisava de um professor de inglês. A cidade ficava no fim do mundo, medo do cangaço e da violência, isolamento completo no sertão da Bahia, e ninguém topava vir para cá apesar das mordomias oferecidas pela companhia.
Uma semana antes de me formar pela PUC de Salvador, entrei na Chesf por concurso, para ver o que viria, no cargo de auxiliar administrativo. O plano era fazer o concurso do Estado e me tornar um funcionário público até a aposentadoria.
Vim cheio de esperança e de ingenuidade. A minha intenção, o meu sonho na realidade, era aplicar a metodologia da professora Maria Magalhães no ensino de inglês no Colégio Manoel Devoto em Salvador; uma obra-prima montada pela mestra que, até hoje, reputo a melhor metodologia para o aprendizado de uma língua.
Ela iniciou o nosso curso (ficou conosco da segunda série ginasial até a quarta) com a introdução dos símbolos fonéticos do Alfabeto Fonético Internacional, IPA, que os colegas de faculdade penavam a aprender. Treinava insistentemente a articulação dos fonemas em inglês com uma pedagogia de fazer inveja aos papas da educação moderna. Ela não dançava em cima do birô da sala, não falava palavrões, nem se assentava na beira do jardim da escola para se mostrar uma pedagoga. Ela martelava os princípios fundamentais no aprendizado de uma língua com maestria e certo rigor.
Como todo arrebentador de obstáculos, todo sonhador, todo crente na grandeza de cada indivíduo, enfrentou resistências e acusações ridículas. Os símplices colegas mesmo ensaiaram um abaixo-assinado para expulsá-la da escola. Em retrospectiva, nós os perdoamos “porque não sabiam o que faziam” incitados por não sabemos que qualidade de porcos e negacionistas.
Vim para o Colepa disposto a imitar o monstro em termos de educação que foi Maria Magalhães. No primeiro dia, bem sentado em frente ao chefe, o primeiro banho de água fria: “Imagine você ensinar inglês a um aluno da Baixa da Égua!”. Saí da sala com um misto de decepção e ignorância. Eu não via nenhuma diferença intrínseca entre um aluno de um bairro chic e outro da Baixa da Égua.
Ainda tentei aplicar princípios básicos de pronúncia e articulação e exercícios de fundamentação. Desnecessário dizer as consequências da minha insistência para o que eu considerava uma boa educação. Apliquei tais princípios na condução do meu filho que hoje é funcionário da Petrobras por concurso no qual obteve excelente colocação entre centenas de candidatos de todo o Brasil. Há que ser dito que o mérito é fundamentalmente dele – com o imprescindível empurrãozinho pedagógico da Boa Ideia da professora Ana Miná, do Sete de Setembro do professor Jackson e, no finalzinho, do Ciepa da professora Vera (onde, exclusivamente por opção própria, concluiu o ensino médio).
Eu chegava em casa e matutava sobre a realidade do sistema. Não entendia a discriminação potencial implícita na minha primeira orientação. Seria eu ingênuo em alto grau, um inadaptado, um rebelde; um inconsequente para si próprio? Nada entendia e nada entendo até hoje.
Um dia, um belo dia, ouvi de Ariano Suassuna que cachorro gosta mesmo é de filé – e não de osso. Ofereça os dois e o cachorro invariavelmente optará pelo filé. Todo educador poderia ser um oferecedor de filé.
Em outro belo dia, deparei-me com a afirmação de Darcy Ribeiro: “A crise da educação no Brasil não é uma crise. É um projeto”. Ouvi alguma coisa semelhante, de alguém, quando estava por lá. Não entendi então e não dei importância porque não havia entendido.
Francisco Nery Júnior





