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Disse o poeta condoreiro baiano Castro Alves: “a praça é do povo, como o céu é do condor”. O lugar da manifestação e da experimentação do espírito republicano é a praça, e como tal, nessa, deveria ocorrer toda manifestação democrática, seja ela individual ou coletiva.

Há alguns meses, numa praça da cidade de Paulo Afonso (especificamente no anfiteatro localizado na avenida Landulfo Alves, na lateral do Espaço Cultural Raso da Catarina) temos sido convidados a participar, quinzenalmente, nas noites de domingo, de um movimento cultural liderado por artistas e pessoas engajadas da cidade oportunamente intitulado de Palco Livre. O palco livre me faz lembrar dos antigos festivais responsáveis por revelar ao mundo artistas como Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Jair Rodrigues, Caetano Veloso, Elis Regina, Chico Buarque e tantos outros, com o benefício de não prezar pela competição, mas sim da apresentação pública dos artistas locais.

Com o apoio da secretaria de cultura do município, comerciantes locais e artistas, temos sido agraciados com apresentações culturais do mais alto nível, num espaço de valorização do fazer artístico local. E por falar em locais, como forasteira que sou, é necessário ressaltar a qualidade, o altíssimo nível dos artistas desta cidade, nos mais variados tipos de arte! É impressionante!

Desde que o Palco Livre começou, e da segunda edição até agora eu não perdi mais nenhuma, tenho observado o evento não apenas com o olhar de espectadora fascinada pelos trabalhos dos músicos, bailarinos, atores, escultores, compositores, escritores e instrumentistas que ali se apresentaram, também me ocorreu perceber que este espaço democrático se interessa e se importa com o artista local. Muitos desses que se apresentam são velhos conhecidos do público, outros, embora com carreiras longínquas aqui na cidade, aparecem como grande novidade para alguns que assistem.

Penso que isso deve ao fato de que os espaços públicos para apresentação desses artistas são bastante reduzidos. Haja vista para os eventos abertos, o que se vê é uma supervalorização do artista de fora em detrimento do artista local, pois se compararmos os pró-labores recebidos, é como se o artista da cidade estivesse pagando para trabalhar, ao passo que o artista de fora leva boa parte da receita dos contribuintes pauloafonsinos, e o pior, esse dinheiro não fica, não circula na cidade depois, não movimenta o comércio, por exemplo. O benefício da contratação se encerra ao fim da apresentação desse.

Não estou dizendo aqui que não merecemos apreciar bons trabalhos de músicos e artistas de fora! Defendo, na verdade, que haja uma maior valorização do artista local, incentivando e ofertando condições de trabalho dignas, até porque diversas vezes observei artistas da cidade qualitativamente muito melhores em suas apresentações em espaços improvisados, do que artistas contratados com suas produções megalomaníacas.

Embora a cidade seja profícua de uma agenda cultural durante o ano inteiro, optei por me concentrar no Palco Livre por ser este um espaço que trata o artista como profissional que vive de sua arte, e portanto, não tem que pagar para se apresentar, ou se apresentar gratuitamente, como é comum vermos na cidade; ademais, procura reunir muita gente boa, nas suas diferentes expressões do trabalho artístico; e esses, quando convidados, além de demonstrarem seus trabalhos, ainda batem um papo, narram suas histórias de como começaram, onde atuam e como compreendem o cenário para o artista na cidade de Paulo Afonso. Ou seja, os espectadores consomem o produto e compreendem o quão humanos e trabalhadores dedicados são muitos daqueles artistas que perseveram em arte num país que desvaloriza cada dia mais esta atividade.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, o Palco Livre nos permitiu perceber que há neste momento, um movimento de retorno de diversas pessoas que saíram da cidade, até mesmo do estado para tentar a vida como artista em grandes centros. Se essa migração de retorno está acontecendo é por conta de espaços como este, nos quais a população tem acesso aos diversos artistas e à qualidade dos seus trabalhos e passa a consumir suas apresentações públicas ou privadas. Assim, vão se formando plateias de ouvintes e espectadores e o Palco livre, penso eu, cumpre sua importantíssima função social na praça do povo.

Contudo, a despeito do apoio institucional que a prefeitura tem dado para este evento, é consensual entre os consumidores de arte (que não são poucos!) que Paulo Afonso carece verdadeiramente de espaços como teatros, salas de exibição e exposição, cinemas, para garantir o mínimo de condições que esses artistas merecem na divulgação dos seus trabalhos. Por que apoiadores temos alguns, como o SESC, por exemplo, que tem garantido, a troncos e barrancos espetáculos de muita qualidade, gratuitos e a preços populares, porém, a cada ano que passa com mais dificuldade de consolidar seus projetos devido a esta precariedade de espaços adequados para o nível de exigência dos artistas que aqui se apresentam ou desejam se apresentar financiados por esta instituição.

Meu desejo é que o Palco Livre tenha a força de um projeto de lei. Nós precisamos disso, e que, nossos gestores compreendam definitivamente que a economia cultural é um ramo que pode ser consolidado com projetos de fomento à cultura, e se sensibilizem para a construção de espaços dignos para a apresentação desses artistas e para o conforto e felicidade destes espectadores. Porque Paulo Afonso merece sim este cuidado! E é o que desejo a esta cidade neste dia de aniversário.

E fique ligado que proximo domingo TEM!

28 de julho de 2016
Liz Teles de Sá
Ipiauense, professora, apreciadora de arte
e amante dos livros,
há três anos vivendo em Paulo Afonso.

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