Compartilhar

Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on print

Não é fácil descrever a história com a qual nos deparamos no último sábado (09), no Conjunto Habitacional Sargento Jaime, BTN  3. Atrás da porta laranja, mora Ruthe Fereira da Silva – 18 anos. Mais que isso, mora uma vítima do desamparo, da violência médica e do descaso com o ser humano.

De ginecologista em ginecologista, a garota vem sem que se resolva um caso aparentemente simples. Ruthe nasceu com sinéquia – coalescência, fusão ou aderência dos pequenos lábios vaginais. Em miúdos – nasceu com a vagina colada. Alguém há de perguntar: como chegou aos 18 anos com esse problema?

“Recebi um chamado da professora para que eu fosse à escola às pressas, porque Ruthe estava trancada no banheiro e não abria a porta, foi um problema para ela abrir, ela gritava e chorava muito”, narra a mãe, dona Maria de Fátima Ferreira, desempregada.

Ruthe então contava já 10 anos. Foi quando a mãe diz que descobriu a doença que maltratara a filha desde que nasceu. Nunca mais foi à escola. Parou na 2º série do ensino fundamental. “Em muitos momentos ela viveu trancada neste quarto, tínhamos medo porque Ruthe se tornou agressiva, mas eu achei melhor que voltasse a ver a vida e perdesse o medo” aponta a mãe.

Ruthe chora, e nós jornalistas não sabemos o que fazer. As indagações feitas por mim, pelo Giuliano Ribeiro e por nosso colega Carlos Alexandre foram muitas. Queríamos saber tudo. As respostas imprecisas:

Giuliano Ribeiro em frente da residência de Ruthe

A partir do momento em que se descobriu o problema de Ruthe o que os senhores fizeram?

Ruthe já foi em muitos médicos, muitos aqui em Paulo Afonso marcados pelo secretário de saúde, também em Feira de Santana, e o médico nos orientou a fazer a cirurgia, nesse momento ela já estava com muita dificuldade para urinar. O médico chegou a cortar um pequeno pedaço e pediu que voltássemos. Não deu certo porque não tive mais condições de voltar. O negócio apertou aqui para mim. (disse seu Francisco, padrasto, desempregado).

Ruthe, como foi sua vida quando você era criança?

Eu sempre senti dor. Agora aumentou muito. O médico diz que minha menstruarão está acumulada, e não desce o suficiente. Eu não sei dizer como minha vagina é, porque o médico não explica.

Ruthe diz que sempre sentiu dor e agora aumentou muito

Há condições de fazer esta cirurgia em Paulo Afonso? O que os médicos dizem?

Sim. Custa R$ 3 mil reais. Nossa renda é de 52 reais mensais, do Cartão Cidadão. Vivemos com a ajuda da nossa família, sou desempregado e não tenho condições de trabalhar porque sou doente”, afirma seu Francisco.

“Ruthe é gêmea, a outra irmã nasceu perfeita, está casada, é quem nos ajuda muito, a médica foi quem me disse, quando ela tinha de 9 para 10 anos. As partes dela estavam inchadas”, lembra a mãe.

Segundo afirmou seu Francisco, depois de muitas idas à Secretaria de Saúde, o secretário Alexei Vinícius que está sabendo do problema prometeu ajudar. “Ela está sofrendo muito, precisa fazer uma ressonância, e depois de imediato a cirurgia”.

Dona Maria de Fátima mostrou os remédios com os quais a jovem consegue suportar as dores, passados por um médico particular e comprados com ajuda de um vereador. De onde é possível concluir que o problema da moça é do conhecimento de muita gente.

Mas esta é uma radiografia de como as coisas funcionam neste país, e aqui no município. Se o caso chegou à Secretaria de Saúde, e em vários médicos, com o valor que a família diz que custa a cirurgia, por que até o momento a moça não foi encaminhada para Salvador?

Não se trata de algo tão complicado. Uma vagina colada? A jovem, segundo afirma os familiares teve uma parte da vagina cortada sem anestesia.

“O médico decidiu cortar um pedaço, esse médico foi preso, porque o acusaram de abuso com outras mulheres, ainda bem que foi preso, porque nós iriámos retornar a Feria de Santana para o resto do procedimento”, disse o padrasto.

O padrasto e mãe fizeram um apelo para conseguir recursos para a cirurgia de Ruthe

Retomando: uma criança é diagnosticada com a vagina colada, aos 10 anos, por médicos de Paulo Afonso, sete anos depois tem um pedaço da vagina cortada sem anestesia em Feira de Santana. O que aconteceu neste intervalo que não foi possível corrigir o problema pelos meios que dispõem o município?

Nota: a reportagem não teve acesso a exames, só vimos às guias médicas. Por isso afirmo que há imprecisão em muitas informações. Ruthe tem problemas psíquicos. “Eles passaram diazepam para ela se acalmar, para dormir porque ela está muito agitada”.
“Eu tomo remédio controlado porque também não estou boa”, diz a mãe.

Eis a família que mora atrás da porta laranja. Muita dor, sofrimento e descaso. Ao arrepio do que reza a constituição, mas, sobretudo, do cuidado que cumpre a cada um de nós pelo próximo, segue Ruthe.

“Nós precisamos de qualquer ajuda: comida, roupa, e alguém que possa nos ajudar com ela, principalmente”, pediu o padrasto.

Concluo: o nome preciso da cirurgia é colperinioplastia. Fica a esperança que Ruthe Ferreira da Silva, de 18 anos, possa enfim, viver, quem sabe até voltar a estudar e ter amigos. E que as lembranças desses momentos difíceis sejam superadas.

Telefone da família para contato e apoio: (75) 9-9101-9497.

 Os comunicadores Ivone Lima e Giuliano Ribeiro conversando com Ruthe e família

 

Compartilhar

Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on print

VEJA MAIS

COMENTÁRIOS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.