Seu Guilherme e a Estética dos Tempos: Nnarrativa e Memória Coletiva na Reinvenção do Cangaço

 

Foi com imenso pesar que recebi a notícia da morte de Guilerme Luís dos Santos. Seu Guilherme, conforme ficou conhecido, teve uma importância imensa na constituição dos traços culturais dos paulafonsinos. Entre os anos 1950 e 1970, a cidade conheceu, entre outros aspectos históricos, um processo de transição de uma cultura de base rural para uma cultura urbana. A primeira, como sabemos, reforçava os festejos juninos, os folguedos, as músicas, as lendas, uma visão do tempo cíclico; enfim, reforçava os valores dos sertões. A segunda direcionava-se para novos padrões, os códigos da cidade, do progresso, da fábrica, da disciplina, da conversão do sertanejo de espírito livre à condição de operário preso aos regramentos da Chesf.

 

Dois mundos em choque. Seu Guilherme, a seu modo, contribuiu para a aproximação destas culturas. Reabilitou o tema do cangaço em uma época em este  tornara-se um tema maldito.   Não era “moda”, como se apresenta nos dias atuais. Tanto assim que, nesta época, os remanescentes do cangaço que viviam na região de Paulo Afonso não se expuseram à população. Com inventividade e articulação social, nos limites do que era permitido na época, Seu Guilherme fundou o grupo de “cangaceiros”, reunindo em torno de si muitos sertanejos operários que sentiam a necessidade de evocar suas lembranças, dos sertões de onde vieram.

 

Vale a pena ressaltar  a força cultural e simbólica deste mecanismo. Logo nas primeiras entrevistas que fizemos com Seu Guilherme ficou claro que a população do Bairro Poty, posteriormente Bairro Nossa Senhora de Fátima, acorria ao grupo para compartilhar aspectos da memória coletiva do cangaço. Os moradores do Bairro Poty não apenas simpatizavam com a presença nas ruas daquele grupo fantasiado de cangaceiros e de soldados volantes,  como também estabeleceu com ele vínculos de identidade sertaneja.

 

 

Da festa juninas eles evocaram as fogueiras, os bailes e as danças de quadrilha, as comidas típicas, a queima de fogos de artifício, os anúncios de casamento e adivinhações, as danças de reisado, as brincadeiras de quebra pote, as corridas de saco, o pau de sebo, a giranda ou os bacamarteiros, a vaquejada e a toada, a cavalhada e a corrida de argola. Enfim, uma sociabilidade que marcou de maneira toda especial gerações de paulafonsinos.

 

Apenas isto já teria sido uma contribuição inestimável das astúcias de seu Guilherme, nosso velho e bom sergipano. A sua grande paixão, que soube como ninguém traduzir em projeto de vida, foi a recuperação da memória coletiva do cangaço e o compromisso de recuperar e transmitir, durante a festa de carnaval, mas não apenas neste período, um significado social para a existência de Lampião. A encenação da morte do “rei do cangaço”,em praça pública, na terça feira de carnaval, encerrava um ciclo de festas e evocações que passaria a se realizar a cada ano, desde  1956.

 

Entre todos os participantes do grupo de cangaceiros de Paulo Afonso, Seu Guilherme foi o único que representou o papel de Lampião. Houve apenas uma exceção quando José Maria Ribeiro, em 1969, ocupou o posto, segundo nos informou o próprio Guilherme. Dessa forma, consolidou-se sua importância enquanto fundador do “bloco”. O grupo passou a ser designado como “cangaceiros de Seu Guilherme”, ou como “cangaceiros de Lampião”. E ele próprio era tratado como “Capitão Virgulino Lampião” ou simplesmente “Capitão”. Este era um tratamento dispensado não apenas nos momentos de ação coletiva durante a representação pública, mas também nos momentos em que o grupo não estava atuando.

 

 

Já no início dos anos 80, com a intitucionalização das atividades do grupo, a importância de Seu Guilherme evoluiu de fundador para conselheiro.

 

Como se explica essa influência? Em algumas falas dos participantes argumenta-se com a experiência de Seu Guilherme; noutras destaca-se o conhecimento que ele tinha sobre assuntos do cangaço. Consideremos que à época em que o grupo foi organizado, os mais idosos, os fundadores, situavam-se numa mesma faixa de idade e num nível de experiências similar. Eram trabalhadores rurais ligados ao cangaço pelo fio da tradição oral ou pelas recordações de familiares ou ainda pelas leituras de folhetos de cordéis que circu��������7�� ��

Seu Guilherme e a Estética dos Tempos: Nnarrativa e Memória Coletiva na Reinvenção do Cangaço

 

Foi com imenso pesar que recebi a notícia da morte de Guilerme Luís dos Santos. Seu Guilherme, conforme ficou conhecido, teve uma importância imensa na constituição dos traços culturais dos paulafonsinos. Entre os anos 1950 e 1970, a cidade conheceu, entre outros aspectos históricos, um processo de transição de uma cultura de base rural para uma cultura urbana. A primeira, como sabemos, reforçava os festejos juninos, os folguedos, as músicas, as lendas, uma visão do tempo cíclico; enfim, reforçava os valores dos sertões. A segunda direcionava-se para novos padrões, os códigos da cidade, do progresso, da fábrica, da disciplina, da conversão do sertanejo de espírito livre à condição de operário preso aos regramentos da Chesf.

 

Dois mundos em choque. Seu Guilherme, a seu modo, contribuiu para a aproximação destas culturas. Reabilitou o tema do cangaço em uma época em este  tornara-se um tema maldito.   Não era “moda”, como se apresenta nos dias atuais. Tanto assim que, nesta época, os remanescentes do cangaço que viviam na região de Paulo Afonso não se expuseram à população. Com inventividade e articulação social, nos limites do que era permitido na época, Seu Guilherme fundou o grupo de “cangaceiros”, reunindo em torno de si muitos sertanejos operários que sentiam a necessidade de evocar suas lembranças, dos sertões de onde vieram.

 

Vale a pena ressaltar  a força cultural e simbólica deste mecanismo. Logo nas primeiras entrevistas que fizemos com Seu Guilherme ficou claro que a população do Bairro Poty, posteriormente Bairro Nossa Senhora de Fátima, acorria ao grupo para compartilhar aspectos da memória coletiva do cangaço. Os moradores do Bairro Poty não apenas simpatizavam com a presença nas ruas daquele grupo fantasiado de cangaceiros e de soldados volantes,  como também estabeleceu com ele vínculos de identidade sertaneja.

 

 

Da festa juninas eles evocaram as fogueiras, os bailes e as danças de quadrilha, as comidas típicas, a queima de fogos de artifício, os anúncios de casamento e adivinhações, as danças de reisado, as brincadeiras de quebra pote, as corridas de saco, o pau de sebo, a giranda ou os bacamarteiros, a vaquejada e a toada, a cavalhada e a corrida de argola. Enfim, uma sociabilidade que marcou de maneira toda especial gerações de paulafonsinos.

 

Apenas isto já teria sido uma contribuição inestimável das astúcias de seu Guilherme, nosso velho e bom sergipano. A sua grande paixão, que soube como ninguém traduzir em projeto de vida, foi a recuperação da memória coletiva do cangaço e o compromisso de recuperar e transmitir, durante a festa de carnaval, mas não apenas neste período, um significado social para a existência de Lampião. A encenação da morte do “rei do cangaço”,em praça pública, na terça feira de carnaval, encerrava um ciclo de festas e evocações que passaria a se realizar a cada ano, desde  1956.

 

Entre todos os participantes do grupo de cangaceiros de Paulo Afonso, Seu Guilherme foi o único que representou o papel de Lampião. Houve apenas uma exce&cce